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Parô, parô, parô. Acabei de ler os três volumes de Blast, HQ do francês Manu Larcenet. Três volumes de 200 páginas cada um. O que dizer? Sensacional. Manu Larcenet ultrapassa os limites da HQ e leva o leitor a uma imersão completa na vida e nas razões de Polza Mancini. A consciência do momento de leitura, do peso do livro, do contato com a ficção desaparece diante da construção narrativa e da forma como o autor manipula suas ilustrações.

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Blast é a história de Mancini, um homem que passou a vida inteira sofrendo por causa de sua obesidade, que se tornou autor de livros sobre gastronomia, suspeito de ter agredido gravemente uma jovem, Carole. A história tem início na delegacia onde Polza está detido. Lá ele é interrogado por dois policiais. Como é suspeito e única testemunha do caso, os policiais são obrigados a ouvir tudo o que ele tem a dizer, verdade ou não. Polza explica com riqueza de detalhes sua trajetória, suas escolhas, seus medos, suas tristezas.

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Polza Mancini na delegacia. 

Ele começa contando que, após a morte do pai, com quem não tinha contato há anos, entende que está sozinho no mundo e, portanto, livre: não tem mais ninguém a quem dar satisfações. É quando ele vive seu primeiro blast, uma espécie de torpor momentâneo, um instante de graça, de paz, de harmonia, de beleza, de tudo o que ele desconhecia na vida. Durante o blast, Mancini é acompanhado por uma estátua moai, e se sente, ao mesmo tempo, leve, minúsculo, gigante. Tem a sensação de poder flutuar. Como é a melhor coisa que já experimentou, decide ir atrás de um modo de vida que o permita viver novamente o blast. Pega suas coisas, abandona sua mulher, tira um dinheiro no banco e vai viver no meio da floresta. Lá vive um verão carpe diem, mas uma série de acontecimentos vão se encadear, até a morte de Carole.

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Não vou enrolar, Blast é primorosa. Do ponto de vista da narração, o ponto forte é a coesão de uma história longa, complexa, criada em volumes separados. Além disso, diferentemente dos textos das outras HQs que tenho lido, a escrita do Larcenet aqui é mais elaborada, com uma linguagem mais apurada e trabalhada (muito provavelmente para combinar com o perfil de Polza, um quase erudito). A violência é uma constante na história, seja ela verbal ou não-verbal. Rock, tráfico, sujeira, hospital psiquiátrico também fazem parte da trama.

Esteticamente, Blast é bastante sombria, com ilustrações em preto, branco e muito cinza. As únicas cores da história acontecem nos momentos de blast, com a inserção de desenhos feitos pelos filhos de Larcenet. O contraste entre as duas atmosferas fica, então, evidente e cada uma salienta ainda mais o peso da outra.

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Representações do blast. 

Outra característica é a forma como o autor manipula a passagem do tempo, com páginas inteiras sem diálogo, apenas com paisagens, retratos de animais, ou contemplativas. Em diversas entrevistas, Larcenet comenta que essas passagens foram inspiradas em The Walking Man, do Jirô Taniguchi, na qual são retratadas as pequenas coisas que acontecem enquanto um homem caminha pela cidade.

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Curiosa também é a empatia com Polza. Ele é suspeito de um crime bárbaro, mas em momento algum é retratado como alguém violento, ao contrário. Ele aparece como uma vítima do sofrimento que viveu a vida toda. Lembrei muito do personagem do Kevin Spacey n’Os Suspeitos e também de toda a investigação de Seven. Polza é uma mistura dos dois filmes.

Falando em filme, em seu blog, Manu Larcenet comentou a venda dos direitos de Blast para o cinema. Lá ele também posta alguns bastidores da criação de Blast et outros aperitivos. Só que antes do filme, aguardo o desfecho da história, em dois ou apenas um volume.

Algumas imagens tirei do Le Figaro.

Camila Teixeira

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5 pensamentos em “Blast, Blast, Blast.

  1. Pingback: Blast | Só na sua cabeça

  2. recomendo demais pra qdo vc vier pra cá ou tiver alguém que leve pra vc. infelizmente ainda nao tem nada dele publicado em português.

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