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Tô sem tempo até pra piscar. Mas vou fechar os olhos pra bagunça e abrir um post novo. Preciso com orgéncia abésóluta falar (rápido, entenda, mas falar) sobre essa BD chamada Ma Révérence (Minha Reverência), roteiro do Wilfrid Lupano e desenho do Rodguen.

Na maior parte dos casos, escolho minhas leituras de quadrinhos pela capa. Se não tem um super-herói, se não tem uma mulher peituda (nada contra as mulheres peitudas, só não gosto de histórias em que o maior atrativo da mulher são seus peitos), se o desenho não é muito carregado e poluído, é quase certo que escolherei esse quadrinho pra ler. Mas no caso de Ma Révérence, a capa é tão light e minimalista que eu fiquei a dois dedos de não pegá-la. Hoje, fico feliz de ter confiado nos meus critérios de escolha, de tão amor que é essa BD.

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Daí chega a parte em que preciso apresentar um resumo da parada. Fala do seguinte: planejamento de um assalto, racismo, homofobia, covardia, drogas, violência, abandono, espancamento de mulher, gente perdida no mundo. Enfim, tudo de mais sórdido que se pode reunir numa história. Mas, como num passe de mágica (e isso pra mim é o principal dessa narrativa), todo esse peso se dissolve na pluma de Lupano e nos desenhos de Rodguen, e o que vemos é uma contradição: uma narrativa cativante, divertida, extremamente desfragmentada mas muito bem costurada, com dois protagonistas adoravelmente detestáveis. Gaby Rocket é um cinquentão preconceituoso até o último fio de cabelo, fã de Dick Rivers & afins, e Vincent, na casa dos 30, um covardão com uma certa solidez intelectual. Ma Révérence é a história do assalto que os dois planejam para que Vincent po$$a retornar à Africa, reencontrar a mãe de seu filho, que abandonou.

A história é contada por Vincent e é inteira recortada por digressões, retrospectivas, historietas sobre seu passado e o de Gaby. O resultado é o retrato da vida bagunçada de Vincent, muito bem orquestrada por Lupano.

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Minha sequência favorita: Vincent chora no colo de uma velhinha desconhecida, após levar um pé na bunda de sua (ex?) namorada africana. (Desculpe a foto horrível. Assim que conseguir, faço um scan correto da página). 

Fico chateada cada vez que quero recomendar uma leitura que não está disponível em português. E até fico me perguntando qual a razão de dedicar um post inteiro a ela. Mas daí eu não resisti porque vi uma entrevista do Lupano, na qual ele fala exatamente o que eu penso sobre HQs de heróis e similares (6’50” – 8’15”). Se você não pode ler Ma Révérence, posso, pelo menos, te apresentar o autor e um pouco de seu modo de funcionamento:

Escrevo bastante em contraponto, em reação ao que eu encontro no mainstream e que me irrita. E quando eu vejo algo que me irrta, faço um roteiro em seguida, principalmente para propor outra coisa. (…) Não tenho muito interesse pelos super-heróis. Acho que há dimensões perigosas no culto aos super-heróis, que vai com culto ao super-homem, que induz ao “sub-homem”. Tem muita coisa dentro disso que eu não gosto. Prefiro as histórias de pessoas comuns que se superam e que podem ser muito bonitas por um instante (parênteses meu: <3) . Tenho a impressão que é tipo de coisa que criamos com o Gaby. (…) Tenho dificuldades em me apaixonar por um personagem que, nos cinco primeiros minutos, é apresentado como sendo o mais bonito, o mais inteligente, o mais forte, o mais engraçado. Não tô nem aí pra esse cara, ele não existe, não o conheço, nunca vou encontrá-lo, e isso não me interessa muito.

Eu poderia falar muito mais sobre essa HQ. Por enquanto, me contento em fazer minha reverência a ela.

Ma Révérence.
Lupano & Rodguen.
Delcourt, 2013.

Camila Teixeira

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2 pensamentos em “Ma Révérence

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